Visão – Manuel Mutimucuio

Sinopse: Trata-se de um romance que retrata o percurso do moçambicano Enoque para tornar conhecida a sua pequena associação, bem como da europeia Agnes Olsson que busca reconhecimento na Europa a partir de um trabalho impactante em África.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 2017

Essa é a segunda vez que leio um escritor moçambicano, mas a primeira que leio uma história escrita por um amigo meu. Conheci Manuel Mutimucuio há pouco tempo, durante o período do meu doutorado sanduíche em Coimbra. Imagino, portanto, que esta resenha esteja longe de ser imparcial. A certa altura, perguntei ao Manuel o que ele costumava ler, e ele me respondeu que pouca coisa, pois achava que as leituras o influenciavam muito durante seu processo de escrita. Também me disse uma verdade óbvia e que pude comprovar na prática enquanto lia VISÃO: deixamos transparecer na escrita tudo aquilo que vivenciamos, por mais banal que seja uma determinada experiência. Isso é fato, tão fato que nunca antes uma metonímia fez tanto sentido para mim: eu li Manuel Mutimucuio. Posso dizer que li meu amigo pois encontrei em VISÃO grande parte de seus anseios, críticas e pensamentos, que compartilhamos durante diversos almoços e jantares na cantina da universidade.

Adentrando a narrativa, VISÃO nos conta a história de Enoque, fundador da ONG que dá nome ao título do livro. Pai de um garoto e com uma esposa a trabalhar em uma repartição pública, Enoque vê a chance de alavancar sua ONG – ou melhor, sua vida – através do aparecimento de uma organização estrangeira (do país escandinavo imaginário chamado Lutândia) que pretende gastar um bom orçamento em um programa de erradicação da AIDS na África. Pessoas e ONGs moçambicanas serão envolvidas no programa e, como Enoque e VISÃO se encaixam nessa qualificação, conseguir um contrato com os escandinavos é sinônimo de ascensão. Em meio às preocupações do dia-a-dia, Enoque trama toda uma estratégia para conseguir o financiamento dos estrangeiros. Enquanto sua mulher passa a trabalhar dobrado com o surgimento de uma oportunidade de aumentar a renda da família, Enoque passa seus períodos de angústias ao lado de sua amante, uma antiga namorada, em um jogo de fingimentos públicos muito bem construído por Manuel.

O que se está em jogo nesse enredo todo é a hipocrisia das instituições de ajuda humanitária, sejam elas organizações filantrópicas, sejam elas as próprias instituições governamentais. Em meio a esse mundo, Manuel nos mostra um verdadeiro circo, onde, no fundo, ninguém está devidamente preocupado em erradicar a AIDS: o que se está em jogo é o status, a aparência e os interesses particulares de melhoria de posição social e de vida. As relações humanas acabam ficando em segundo plano, enquanto o leitor espera o início das ações de combate à AIDS. O problema não é a espera do leitor, mas a espera dos afetados pela doença, que, em meio a algumas crenças mal fundamentadas, aguardam que a ajuda vire uma ação de fato, não se mantendo na forma de um mero relatório ou de um borbulhar de discursos e palavras. É de maneira concisa e clara que Manuel nos mostra toda essa sua visão crítica social. Não há muito lugar para esperanças na trama. No final das contas, a verdade é que nós mesmos achamos difícil acreditar que os atores relevantes para a resolução desses grandes problemas estejam propensos a abrir seus olhos em busca de alguma VISÃO.

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