Uma Casa Na Escuridão – José Luís Peixoto

Sinopse: «Então, fechei os olhos com força e fixei-me no que via. Esta era uma das coisas que fazia desde pequeno, que tinha descoberto por acaso e que imaginava ser eu a única pessoa a fazer no mundo. Fechava os olhos e via. Via o que se vê com os olhos fechados (…) Isto é o que se vê quando fechados os olhos e continuamos a ver: a cor negra e os pequenos seres de luz que a habitam. E não se consegue olhar fixamente nem para o negro nem para a luz. Os pontos ou as linhas ou as figuras de luz fogem da atenção. O negro é tão absoluto, tão profundo, tão infinito que o olhar avança por ele sem encontrar um lugar onde possa deter-se. Mas, naquela noite, comecei a distinguir algo dentro desse negro.»

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 2002

“Uma Casa na Escuridão” é o segundo livro de José Luís Peixoto que li. Até então, tinha lido apenas “Morreste-me” e um outro conto do autor, ambos sensacionais. O que havia me chamado a atenção na escrita de Peixoto é sua capacidade de tocar em temas profundos (como a morte e o amor) com um lirismo e uma poesia substancial, que me soou muito verdadeira, longe de uma pieguice corriqueira ou de uma erudição blasé.

Em “Uma Casa na Escuridão”, acompanhamos o protagonista escritor inserido em um lugar e um tempo imaginados, onde ele se apaixona pela própria personagem que cria, vendo-a constantemente dentro de si mesmo. Nesse mundo, há escravas, há príncipe e há um mês em que o dia não nasce. Acima de tudo, há muita tragédia. Com o caminhar da narrativa, coisas surreais começam a acontecer e personagens mais surreais ainda entram em cena. Página após página, vamos sendo apresentados a acontecimentos cada vez mais grotescos, onde um mote unificador envolve tudo o que estamos a ler: a impossibilidade de manter para sempre o que mais amamos.

Nesse livro, encontramos, novamente, belíssimas passagens, comprovando como José Luís Peixoto é um verdadeiro artesão das palavras. Vale citar dois trechos. O primeiro deles, fala sobre a percepção que o protagonista tem do amor:

“O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente”.

E que tal essa outra pequena passagem:

“Perguntou-me o que é que eu escrevia nos livros. Respondi-lhe que me escrevia a mim. Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridículas: amor, esperança, estrelas, e nas palavras mais belas: claridade, pureza, céu. Transformo-me todo em palavras”.

Dois exemplos de uma verdadeira poesia em prosa.

Se o tema central do livro é profundo e tocante e se a qualidade lírica das palavras de Peixoto está presente, então, certamente, esse é um livro espetacular, certo? Nem tanto. Por incrível que pareça e, para minha própria surpresa, confesso que achei que a leitura se arrastou um “bucadinho”, como dizem os portugueses. Se por um lado as minhas experiências passadas ao ler o autor foram curtas e impactantes, essa começou da mesma forma e foi perdendo um pouco o fôlego. Não sei muito bem o motivo por trás dessa minha percepção: se foi pela introdução de uma narrativa surreal que talvez não tenha ficado tão bem casada com a prosa de Peixoto; se foi pela repetição de algumas passagens e percepções do protagonista, deixando o texto um pouco cansativo; se foi uma escolha equivocada do autor ao não conduzir a narrativa para caminhos mais críveis, incluindo um exagero de tristeza e “sofrência” que prolongam demais um texto que seria mais impactante se fosse mais curto. Pode ser que o verdadeiro motivo seja a mistura de todos esses motivos. O fato é que talvez eu prefira os textos mais curtos de José Luís Peixoto, apesar de que ler apenas uma obra um pouco mais extensa do autor não me permite criar nenhum tipo de regra ou de constatação definitiva sobre essa experiência literária. Com certeza ainda lerei outras obras desse autor, ainda que essa, na sua impressão final, não tenha me deixado tão entusiasmado assim.

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