Ruído Branco – Don DeLillo

Sinopse: Ruído branco, o oitavo romance de DeLillo, é a história de um professor universitário que vive com a família no Meio-oeste americano, numa cidadezinha que é evacuada depois de um acidente industrial. À luz de desastres como o da Union Carbide na Índia, que matou mais de duas mil pessoas e feriu outras milhares (e que acabara de ocorrer quando o livro foi publicado), Ruído branco mantém seu sentido atual e aterrorizante. 

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 1985

“Ruído branco” é o nome que se dá a um sinal aleatório com mesma intensidade em diferentes frequências. O barulho de um aspirador de pó é um ruído branco. Quando você liga uma TV sem sintonia em nenhum canal, aquela imagem granulada também é a representação de um ruído branco. Em estatística, o rúido branco é uma sequência de variáveis aleatórias, sem correlação temporal, com média zero e variância finita. Então, o que seria o Ruído Branco de Don Delillo?

O ruído branco de DeLillo está representado no livro em duas dimensões: como objeto e como forma. No primeiro caso, temos o ruído branco que permeia a vida dos personagens em uma multitude de sinais aos quais qualquer pessoa está exposta no dia-a-dia. Ao longo do livro, esses sinais se manifestam através das frequências de rádios, TVs e toda a enxurrada de propagandas, produtos e marcas que bombardeiam os personagens. Um supermercado, por exemplo, se torna uma fonte quase inexaurível desse tipo de ruído, emitindo sinais e informações sem parar. Mas essa é apenas uma dimensão mais abstrata de como se pode interpretar a presença do ruído branco no livro de Delillo.

O segundo modo como esse elemento aparece na obra é através de sua forma. Isso é, o livro aborda uma grande quantidade de temas, quase que com uma certa aleatoriedade comum a um ruído branco, apesar de que é possível unificar esses temas através do modo de vida americano, ou melhor, do medo de perdê-lo. A narrativa traz esse elemento unificador ao acompanharmos o cotidiano de nosso narrador-protagonista, Jack Gladney, professor universitário e pesquisador da obra e vida de Hitler. Somos apresentados aos seus companheiros na universidade, à sua esposa (a quarta!) e seus filhos e enteados incríveis (nos dois sentidos da palavra): Denise, de 11 anos, uma menina com uma inteligência e sagacidade quase surreal para sua idade; Steffie, de 10 anos, sua filha super-curiosa e receosa; Heinrich, de 14 anos, um menino também de inteligência absurda que é viciado em acompanhar tragédias pela TV; Wilder, o filho mais novo, ainda uma criancinha inocente. Também somos apresentados aos medos e anseios de Jack: enquanto em um momento da narrativa ele se preocupa em aprender alemão para não passar vergonha entre seus colegas, em outro, uma questão mais nobre e profunda começa a surgir, o medo da morte.

O “medo da morte” acaba por ir dissipando o ruído branco temático do livro e se tornando o fio condutor da narrativa. Se no começo do livro nos perguntamos qual é o propósito da história e por qual motivo somos bombardeados com uma certa aleatoriedade de situações e temas, da metade para o fim do livro a situação começa a se tornar mais clara. Somos brindados com alguns diálogos incríveis sobre como o ser humano tenta lidar com a morte, como quando Murray, um professor amigo de Jack, sugere ao nosso protagonista que um ato de assassinato é uma forma de ganhar “créditos de vida”, como se matar alguém fosse uma forma de afirmar a perenidade da própria vida ao controlar o destino fatal de outras pessoas.

Se por um lado esse tipo de diálogo, aliado a uma escrita que faz com que a leitura flua muito bem, é um ponto alto do livro, por outro é preciso ressaltar alguns problemas. Por exemplo, o ruído branco como objeto poderia ser melhor explorado. Toda essa quantidade gigantesca de informação poderia ter um papel mais central na história, ficando parecendo que algumas questões ficaram pouco desenvolvidas em pequenos temas fragmentados ao longo da história. Outro exemplo são os personagens. Embora eu até tenha achado cativantes os filhos de Jack, eles são muito cartunescos e pouco convincentes para suas idades. Fica parecendo que todas as crianças que habitam aquele mundo são geniais, ultra-independentes e dotadas de uma capacidade intelectual invejável, o que dá um certo tom de artificialidade a um mundo onde questões tão naturais quanto o medo da morte vão ficando em primeiro plano. Portanto, embora o livro consiga explorar algumas questões interessantes com uma boa fluência narrativa, não está livre de apresentar algumas limitações. Fica a cargo do leitor a capacidade de distinguir as diferentes frequências que formam esse ruído.

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