Retorno a Brideshead – Evelyn Waugh (TAG)

Sinopse: Obra decisiva de Evelyn Waugh, o mais mordaz dos escritores ingleses, Retorno a Brideshead narra as lembranças do capitão Charles Ryder, que durante a Segunda Guerra reencontra a mansão dos Brideshead, cenário de momentos cruciais de sua vida. Da teia de recordações emerge o retrato magistral de uma família em processo de desagregação.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 1945

“Retorno a Brideshead” é um desses livros que se destacam mais pela escrita bem delineada e coerente do que pela pujança da história que ele nos apresenta. O livro abre com o protagonista narrador, Charles Ryder, capitão do exército britânico – “a quem me ligara indissoluvelmente num momento de loucura”, como ele nos conta – e está em meio a uma campanha na zona rural inglesa. Sem muita demora em termos de páginas, vemos Ryder chegar com sua tropa em uma grande casa, Marchmain House, o que lhe desperta algumas memórias. Tendo que se instalar ali, Charles começa a nos narrar tudo o que viveu naquele local e suas relações com a família que era dona daquela casa.

Seu primeiro contato com alguém daquela família foi com Sebastian Flyte, sujeito que conheceu ainda jovem em seu primeiro ano em Oxford e com quem estabeleceu uma relação de amizade que, por vezes, sugeria um tipo de amor platônico por parte de Charles. Sebastian é uma pessoa ímpar, que vive andando com um urso de pelúcia “cheio das vontades” e opiniões. Ele sente um misto de indiferença, desprezo e nostalgia por sua família, o que parece ditar ao menos parte do seu comportamento. A certa altura, Sebastian leva Ryder para uma visita a sua casa de campo: Marchmain House. A partir daí e por toda a narrativa, Ryder – e nós, por meio dele – vai conhecendo os outros integrantes da família de Sebastian: sua mãe e seu irmão mais velho, ambos muito católicos; seu pai, nada devoto e que partiu para Veneza para morar com a amante; sua irmã Julia, que faz Ryder lembrar a todo momento de Sebastian e tem um certo jeito independente de encarar a vida; sua irmã caçula, Cordélia, muito sagaz e, assim como a mãe e irmão mais velho, muito religiosa.

Em meio a algumas aventuras e muita bebida, a amizade entre Ryder e Sebastian se fortalece nos dois primeiros anos em Oxford para, em seguida, começar a estremecer: Sebastian começa a exagerar no álcool e passa a beber incontrolavelmente. Ele se sente a ovelha negra da família, mas, ao mesmo tempo, não sente qualquer remorso por causa disso. É um rebelde por natureza, ainda que aproveite de seu status para pedir dinheiro emprestado a quem for para continuar sua rotina etílica. Esses desenvolvimentos vão nos apresentando a vida das famílias aristocratas inglesas na primeira metade do século XX, no período anterior à II Guerra Mundial. Enquanto a relação entre Ryder e Sebastian vai se enfraquecendo e se distanciando com o problema deste, os laços entre Charles e a família de Sebastian se moverá de maneira não homogênea: hora com discordâncias e distanciamentos, hora com uma atração passional. São essas relações que compõem as memórias do protagonista e ditam o ritmo do livro.

Um leitor dos dias atuais não conseguirá acessar uma contemporaneidade na história proposta por Evelyn Waugh, ao menos no que se refere aos costumes, ao ambiente e à narrativa central. Dessa forma, a escrita consistente do autor assume o papel de protagonismo da obra ao lado de três grandes temas: o amor, a religião e o alcoolismo. Já que é um livro tipicamente marcado pela época em que sua história se passa, talvez o autor pudesse ter aproveitado melhor os personagens mais fortes e marcantes que nos são apresentados: a pequena Cordélia, Anthony Blanche – um amigo homossexual de Ryder e Sebastian que é extremamente direto e mordaz em seus discursos, refletindo, ao que parece, um pouco da personalidade forte que tinha o próprio Waugh – e, claro, o próprio Sebastian, que vai perdendo um pouco de participação no livro conforme a obra avança. Se esses personagens recebessem maiores atenções durante a trama, o livro certamente ganharia um tempero mais saliente, tornando-o mais tragável para os famintos leitores dos dias de hoje. Ainda assim, não deixa de ser um livro muito bem escrito, cujas memórias do protagonista se fecham em si mesmas. Não há como dizer que a estrutura da história é frágil ou que há fortes problemas em termos de coerência. O que faltou, talvez, foi uma maior dose de audácia por parte de Evelyn Waugh para transformar um relato de memórias bem contado em uma história marcante e inesquecível. É um livro bom, mas não muito mais do que isso.

CLASSIFICAÇÃO:

 

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