O Último Grito – Thomas Pynchon

Sinopse: Meses antes do ataque terrorista contra as Torres Gêmeas, a simpática Maxine, uma especialista em fraudes fiscais, é contratada por um documentarista para investigar as movimentações suspeitas de uma start-up. A trilha do dinheiro desviado parece levar a Gabriel Ice, misterioso investidor que anda interessado em comprar o código-fonte do DeepArcher, um novo videogame que transforma a deep web numa realidade virtual habitável. Todas as pistas levam a mais pistas, e os desdobramentos incluem o financiamento secreto de terroristas, contrabando de sorvete russo proibido e os meandros do mundo nerd da virada do milênio. Meio história de detetive, meio cyberpunk, híbrido de comédia familiar e thriller sobre terrorismo, O último grito é um romance inesquecível, obra máxima de um dos escritores mais cultuados do nosso tempo.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 2013

Uma grande parte da vida que nós, indivíduos do século XXI, levamos pode ser traduzida em bits, meras sequências de zeros e uns que nos definem e vão deixando nossas pegadas no tempo pós-analógico. Pois bem, neste próprio instante, você está imerso nesse mundo digital, navegando pela World Wide Web, lendo essa resenha – que também não passa de uma sequência binária bem ordenada – e consumindo uma avalanche de informações que provavelmente saíram da caixa da cultura pop contemporânea, patrocinada e promovida por alguns interesses financeiros empresariais bem definidos. Enquanto isso, as relações pessoais vão caminhando ali, ao largo, esmorecendo pouco a pouco, como se estivesse em outro plano mundano.

E o que isso tem a ver com “O Último Grito”?

Tudo. Nesse livro de Thomas Pynchon, acompanhamos a fiscal-detetive Maxine em sua jornada para descobrir os “podres” por trás de uma grande empresa de tecnologia, comandada pelo bilionário Gabriel Ice, um geek que viu sua fortuna crescer em escala geométrica. Somos inseridos no universo da Nova York pré-atentado de 11 de setembro de 2001 e arremessados em uma história de transferências ilegais, jovens prodígios da informática, conspiração política, crimes e, claro, uma pitada de paranoia, como não poderia deixar de ser em um romance pynchoniano. Além disso, como já é de costume nas obras do autor, somos apresentados a uma lista gigantesca de personagens, cada um mais caricato do que o outro.

Em meio a essa confusão de intrigas e rostos, vemos Maxine se aprofundar em um universo à parte, passando a interagir com capangas russos, agentes do Mossad, investidores misteriosos e uma série de personagens que exercem atividades que, para dizer o mínimo, parecem muito suspeitas e ilícitas. Além da investigação, Maxine começa a dedicar parte do seu tempo a navegar no Deep Archer, uma espécie de programa desenvolvido na deep web que simula uma realidade virtual para que as pessoas habitem e interajam através de seus avatares. Ao longo do livro, esse simulador vai se tornando cada vez mais desenvolvido, de forma que, em certo momento, Maxine passa a se perguntar se ela está no mundo real ou no digital, e se até mesmo é possível viver eternamente dentro de um avatar em caso de morte.

Esse é apenas um lado da história. Uma leitura mais desatenta poderia relegar ao segundo plano um outro lado fundamental nesse livro de Pynchon: a importância e o detrimento das relações pessoais. E aqui, talvez o exemplo mais evidente do tema seja a própria família de Maxine. Ela tem dois filhos e um ex-marido, Horst, que, logo no começo do livro, acaba indo morar de volta com ela e os meninos. Maxine e Horst revezam os dias para levar as crianças na escola, mas a atribulada vida da protagonista chega até a fazer com que ela se esqueça de que é seu dia de levar as crianças. Seu relacionamento com Horst, obviamente, também não foi (é) dos mais saudáveis. Sua melhor amiga, inclusive, acaba por ficar com alguns homens com quem Maxine se relaciona. A interação que Maxine tem com seus pais, apesar de amistosa, parece ser um tanto fria, pois ela se refere a eles sempre pelos nomes próprios. Como se não bastasse, ela tem uma relação conflituosa com sua irmã, cujo marido acaba indo trabalhar na empresa de Ice e se torna também um suspeito ou, ao menos, alguém a mais em sua agenda investigativa. Diante desse cenário, chegamos ao fatídico dia do atentado terroristas, que, no final das contas, pode servir como uma metáfora em escala global de como os laços entre as pessoas estão cada vez mais frágeis mediante interesses espúrios, e que não estamos seguros em lugar nenhum. Mas Pynchon não iria deixar tamanho evento passar na nossa frente sem explorar ao máximo sua capacidade de servir como combustível para teorias da conspiração, amarrando-o às suspeitas que vão surgindo durante toda trama.

Em resumo, pode-se dizer que “O Último Grito” é sim um livro com um forte tom de suspense investigativo em que Pynchon tece uma trama paradoxalmente confusa e consistente, em um universo cujo funcionamento é altamente ditado pelos imperativos das grandes corporações, pelo desenvolvimento (e decadência) da tecnologia e pela onipresença da cultura pop americana. Contudo, lê-lo apenas sob essa perspectiva é deixar escapar as nuances críticas que o autor nos apresenta página após página, principalmente no que se refere à decadência sensível das relações entre as pessoas, que acabam se tornando reféns ou objetos de manipulação de interesses menos imprescindíveis. O pior é que é praticamente impossível de negar que esse é um reflexo bem fidedigno dos nossos tempos. E, no final, fica sempre a pergunta em nossa cabeça: o quanto disso é nossa própria culpa? Eu não sei, mas as vezes é melhor mesmo fazer um logoff.

Classificação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s