Neve – Orhan Pamuk

Sinopse: Neve, que o autor Ohran Pamuk define como “seu primeiro e último romance político”, conta a história de Ka, poeta exilado na Alemanha, que viaja a uma pequena cidade turca com o pretexto de investigar a onda de suicídios entre jovens muçulmanas que assola o vilarejo. Durante essa visita, uma nevasca bloqueia todas as estradas, insulando a cidade do resto do mundo. É nesse clima de isolamento que um veterano ator e sua mulher aproveitam para liderar um golpe militar.

Nacionalidade do autor:  
Ano da publicação do texto: 2002

Em épocas de pura intolerância, preconceitos à flor da pele e desrespeito às minorias, nada mais propício do que uma história sobre violência e abuso do poder em uma cidadezinha turca – Kars – que vive seus dias de isolamento do mundo por conta da neve que cai em grande volume. Ka, poeta turco que mora na Alemanha, decide ir para Kars fazendo um papel de repórter para uma mídia alemã no intuito de cobrir uma série de suicídios femininos que começou a ocorrer nesta cidade. No entanto, ao chegar lá, descobre que os motivos do suicídio são muito mais complexos do que uma simples causa passível de julgamento ou solução prática.

A história nos é contada por um relato de um amigo de Ka. Esse narrador possui uma onisciência para além do imaginável quando consideramos que ele não estava presente durante tudo o que aconteceu. Isso já soa como uma certa estranheza no livro, provavelmente até como um pequeno ponto negativo, dado que o narrador reproduz minuciosamente todos os diálogos que seriam difíceis de imaginar para alguém que reconstitui a história através de diários e cartas do amigo-protagonista. À parte essa questão, seguimos Ka desde sua chegada a Kars em meio à nevasca que faz fechar todas as vias de acesso à cidade por alguns dias. O ambiente da cidade é de pura tensão em meio às eleições que se aproximam e fomentam um embate ideológico entre os secularistas e apoiadores do exército de um lado – com veneração à imagem do militar Atatürk, que fundou a República da Turquia – e os islamitas do outro. É desse conflito que se desenlaça toda a trama do livro, incluindo aí a questão do suicídio e da liberdade.

Ka se aloja em um hotel e logo se apaixona por uma das filhas do dono, Ípek, mulher dotada de beleza estonteante e ex-namorada de um dos principais concorrentes islâmicos da cidade. A irmã mais nova de Ípek, Kadife, além de possuir uma grande beleza como a irmã é uma personagem feminina extremamente forte, sendo que toma as dores das suicidas e, assim como elas, faz questão de cobrir a cabeça com o véu, embora as regulamentações presentes exijam a não utilização do véu em ambientes públicos, como na escola. Aliás, é justamente por conta do assassinato do diretor da escola de Kars por um suposto fanático islamita que toda uma torrente de combustível é jogada na pequena chama de conflito que já estava acesa. Os rumos da vida dos personagens mudam rapidamente após esse assassinato e um acontecimento em uma peça que é encenada no teatro nacional da cidade, sendo algo que beira o absurdo. A partir daí, desenvolve-se a relação entre Ka e as duas irmãs, bem como outros personagens centrais, como os estudantes da escola religiosa, Necip e Fazil, o suposto terrorista islâmico que está na cidade e pelo qual Kadife é apaixonada, Azul, e o diretor-ator da companhia de teatro, que toma para si poderes que não lhe pertence. Em meio a toda essa convolução social, Ka passa a ter inúmeras inspirações poéticas e escreve diversos poemas que são compilados em um livro também chamado Neve, retratando suas experiências vividas em Kars. O curioso é que nós, leitores, não temos a oportunidade de ler os poemas, por motivo que ficará claro durante a leitura. Se, por um lado, a leitura nos permite esclarecer todo o tecido de motivações pessoais e problemas sociais dos habitantes de Kars, por outro poderia ser também um pouco mais enxuta sem perder sua qualidade, sendo esse mais um pequeno ponto negativo da obra.

É tranquilo dizer que Orhan Pamuk estava muito preocupado em trazer questões pesadas e complexas ao elaborar Neve, aproveitando as peculiaridades de seu país natal. A Turquia é um verdadeiro caldeirão cultural onde borbulham o oriente e o ocidente, o secularismo e a religiosidade, sendo isso tudo a receita perfeita para o surgimento de conflitos e intolerância. Talvez o que mais chame a atenção para um leitor ocidental é a posição que os islamitas têm na sociedade retratada em Kars, onde estão subjugados pelo domínio político dos secularistas em meio a um discurso de progresso comum à cultura ocidental típica. Embora seja quase natural pensarmos no islã por seu caráter restritivo e paternalista, os papéis nessa história são, de certa forma, invertidos, pois o que está sendo proibido é a demonstração aberta de uma crença religiosa e da possibilidade desses costumes serem legitimados politicamente. Não é uma questão fácil e acaba por exigir constantemente uma reflexão por parte do leitor, algo que transcende a narrativa. Contudo, é uma reflexão que ocorre naturalmente e é mais do que bem-vinda e necessária.

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