Jerusalém – Gonçalo M. Tavares

Sinopse: Uma mulher, um assassino, um médico, um menino, uma prostituta e um louco. E uma noite. 

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 2004

Ao fim da leitura de “Jerusalém”, fiquei com uma sensação única de quem contempla algo estranho, diferente. Ao mesmo tempo, também senti uma dificuldade enorme em tentar classificar esse livro ou comparar com similares. O que posso afirmar, com alguma segurança, é que, apesar desse misto de estranheza e indeterminação, gostei da experiência.

Pensando um pouco melhor, talvez essa estranheza venha um pouco da incongruência entre a agilidade da leitura e o peso do conteúdo. No que diz respeito ao conteúdo, “Jerusalém” faz parte de uma série de quatro livros intitulada “O Reino” – ou “Livros Pretos” – escrita por Gonçalo Tavares. O mote desses livros é o mal. Portanto, não espere encontrar passarinhos cantando no parque ao ler “Jerusalém”. Somos apresentados a um universo de personagens singulares que estão interligados por laços sanguíneos, pela loucura e pela dor. Na abertura do livro, acompanhamos Mylia, uma mulher de quase quarenta anos que está a vagar pela madrugada em busca de uma igreja aberta. Ela está morrendo e sente uma dor intensa no ventre. Ao mesmo tempo, passa a sentir uma dor mais intensa ainda em seu estômago: a dor da fome, dor essa que a faz ter alguma esperança e sentir a própria vida.

É também a dor humana a obsessão central de Theodor Busbeck, um médico e pesquisador renomado que tem dedicado grande parte de seu tempo a tentar construir um gráfico que estabelece uma relação matemática entre o horror e o tempo, entre civilizações dominantes e civilizações dominadas. Contudo, não é só o tema a peça que unirá Theodor e Mylia, como será descoberto ao longo da leitura. Aliás, o melhor a dizer é que o livro é a união de várias peças, vários personagens extremamente originais – para não dizer loucos, o que de fato são – que se encontram na mesma madrugada da abertura do livro. Só para se ter uma breve noção do restante do elenco: temos Kaas, o filho de Theodor (sic) de 12 anos que apresenta sérios problemas físicos; Ernst, um sujeito que está prestes a se suicidar; Hinnerk, um veterano de guerra que vive isolado e com medo, assustando as crianças da redondeza; Hanna, uma prostituta com uma marca simbolicamente singular; Gomperz, um diretor de sanatório que lê a bíblia para seus internos aos domingos (e de onde pode ser extraída parte da citação que dá título do livro). Esse conjunto de personalidades desfiguradas em suas idiossincrasias mal permitem o desenvolvimento de qualquer tipo de afeição por parte do leitor, tal é o estranhamento que causam.

Contudo, como afirmei no começo, ainda que nos deparemos com essas peculiaridades cruéis e insanas das personagens, somos puxados para um outro lado do espectro ao encontrar uma certa leveza no ritmo da leitura. Tavares trata de temas densos através de um formato em capítulos que, muito raramente, possuem mais do que 4 páginas. São pequenos excertos que vão e vêm no tempo da narrativa e no núcleo dos personagens. Essa variação de pequenos pedaços que se encaixam torna a leitura muito dinâmica, de forma que o término do livro nos permite perceber uma incongruência entre o peso da história e a fluidez da leitura. Talvez seja essa a razão do surgimento da minha sensação de estranheza e de “inclassificaçao” da obra. Não sei, talvez seja uma mera especulação formal de minha parte. Só não posso negar que, ainda que não tenha achado “Jerusalém” uma obra-prima, esse é um livro deveras peculiar e que merece uma chance de quem aprecia uma boa literatura, seja lá o que isso queira dizer.

CLASSIFICAÇÃO

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