Gótico Americano – William Gaddis

Sinopse: Que interesses podem unir um veterano da Guerra do Vietnã, um pregador fanático, uma mulher rica, mas mal-amada, um geólogo com pretensões a escritor e um senador com negócios pouco transparentes na África? No entanto, encerrados naquela casa de estilo gótico americano, eles vão encontrar-se nos seus desencontros e vão falar de assuntos como o humanismo, a política, o dinheiro, a guerra ou o futuro do planeta.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 1985

Não há fórmulas para se escrever um livro, mas certamente há fórmulas para tornar um livro chato. Pois o senhor William Gaddis aplicou com maestria essa fórmula em “Gótico Americano”. Em um resumo muito medíocre, pode-se dizer que acompanhamos as discussões de um casal – Paul e Liz Booth –  dentro de sua casa recém alugada. Aparentemente, o pai milionário de Liz morreu, mas ela e Paul, por algum motivo obscuro, não têm direito de por a mão na herança. Então, passam a discutir formas e mais formas de conseguirem o dinheiro, seja envolvendo advogados, políticos ou mesmo amigos. Enquanto isso, aparece Billy, irmão de Liz, que não é uma pessoa muito convencional e não se dá bem com Paul. O sujeito vive aparecendo para pedir dinheiro emprestado para a irmã. Em seguida, também somos apresentados ao misterioso Sr. McCandless, dono da casa em que Liz e Paul estão morando. Em meio às conversas, o telefone não para de tocar, inconvenientemente. Enquanto Liz se mantém calma e serena em meio ao caos, Paul está sempre falando, lamentando, bebendo whyskey e rebaixando a esposa. A casa é um verdadeiro stress.

Se o stress da casa é evidente na narrativa, também é na cabeça do leitor. O livro todo é composto praticamente apenas de diálogos. Não há apresentação dos personagens, não há contextualização sobre o que eles estão conversando, não há alívio cômico, não há nem mesmo uma brecha para os próprios personagens respirarem. É como se Gaddis nos jogasse em uma peça teatral dramática que já estivesse praticamente na metade. Ficamos completamente perdidos, à deriva. O livro pede um tipo de exercício mental do leitor que exige um trabalho quase detetivesco, de ir montando um quebra-cabeça absolutamente desordenado, que, no fim, nos entrega a imagem de um quadro abstrato. O que o autor faz aqui é um mero exercício de estética pós-moderna, de confusão, embaralhamento, uma tentativa de retratar a realidade mergulhando pura e simplesmente em diálogos cansativos e absortos de grandes interesses. Essa é uma fórmula funcional para um livro ter grandes chances de ser chato: ser escrito apenas para afirmar uma estrutura de narrativa, um livro que claramente é feito para acadêmicos ou para os especialistas das letras. Eu posso estar muito enganado neste ponto, mas acredito que até para leitores mais ávidos por coisas novas, esse livro desceria arranhando pela garganta. Engasguei por tamanha enfadonhice.

Creio que meu ponto de vista já tenha ficado muito claro, mas devo ressaltar um ponto muito específico: William Gaddis não escreve mal. Por “escrever mal” me refiro aqui meramente às regras formais e ao vocabulário, pois, se levássemos em conta todos os elementos da história para definir o que significa dizer “escrever mal”, aí sim, obviamente, não poderíamos afirmar isso. Contudo, a verdade é que é possível notar que há talento em sua escrita, apesar de tudo. Lamentavelmente, fica a sensação, como comentado anteriormente, de que o autor utilizou toda sua capacidade apenas para tentar afirmar um ponto de vista formal e estético em detrimento do desenvolvimento de uma história que permita algum tipo de imersão ou apreciação por parte de quem lê. Provavelmente, o objetivo da obra é justamente gerar no leitor o mesmo cansaço que sente Liz. Ele consegue, mas, para o azar dele – e meu – é um cansaço que leva ao puro tédio. Não abandonei a leitura por muito pouco, quase que por uma questão de honra. Não posso recomendar essa obra.

CLASSIFICAÇÃO:

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