Enclausurado – Ian McEwan

Sinopse: O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante, assassinar o marido.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 2016

“Enclausurado” é um dos livros com a proposta mais criativa dentre tudo o que eu já li, dado que seu narrador é um feto cuja percepção do mundo é limitada aos estímulos que chegam a ele através de sua mãe, Trudy. No entanto, não é um feto qualquer, mas um ser dotado de uma inteligência acima da média, que vai tecendo suas opiniões e considerações de modo ácido e sagaz. Descobrimos que ele desenvolve esse intelecto através da televisão, do rádio e, principalmente, dos diversos podcasts que sua mãe costuma ouvir. Também é versado em poesia, pois seu pai, John, é um poeta dos mais ativos, declamando poemas nas horas mais inesperadas. Aliás, é justamente pelo problema de relacionamento que os pais, agora separados, têm entre si que logo somos apresentados a um outro personagem central para a trama: Claude, amante de Trudy. Claude não é um amante qualquer, como será descoberto ao longo da leitura. Em meio a cenas de sexo, acompanhamos todo o desprezo que o feto nutre por esse personagem, passando a descobrir que ele e sua mãe pretendem cometer um atentado contra a vida de seu próprio pai. Temos, então, um narrador bem original e instigante, além de uma boa história de suspense para acompanharmos com curiosidade seu desenrolar, constituindo-se em bons elementos para uma narrativa sólida. Um pequeno ponto baixo é que Trudy, John e Claude não são personagens tão interessantes quanto o feto, mas é até possível justificar essa inferioridade do desenvolvimento desses personagens pela escolha do narrador e sua própria limitação natural que, por ainda estar sendo gestado na barriga de sua mãe, nem mesmo conhece a feição dessas pessoas.

Talvez o grande destaque do livro seja mesmo a personalidade que Ian McEwan escolheu para seu narrador. O autor dá voz a um ser de alguns meses que é mais inteligente e sensato do que o cidadão médio britânico, revelando uma clara opção pelo contraste entre idade vs. sabedoria. O intuito é mostrar a inconformidade com o que o ser humano é capaz de fazer, sempre com um tom de incredulidade e pessimismo. Em algumas passagens, temos o bebê (ou seria o próprio McEwan?) refletindo sobre os absurdos do mundo, como a possibilidade de uma guerra nuclear em um futuro não muito distante:

“Será que os nove bilhões de personagens vão conseguir escapar de um conflito nuclear? Pense nisso como um esporte de contato físico. Alinhe as equipes. Índia contra Paquistão, Irã contra Arábia Saudita, Israel contra Irã, Estados Unidos contra China, Rússia contra Estados Unidos e Otan, Coréia do Norte contra o resto”.

Mas não se engane, pois essas reflexões são apenas rápidas provocações que não culminam em grandes desdobramentos filosóficos. Por sinal, destaca-se que o livro também tem umas boas parcelas de humor, principalmente quando o feto beberrão clama para que sua mãe beba mais uma taça de vinho para seu bel prazer:

“”Preciso pensar no bebê”, ouço-a dizer enquanto cobre a taça com uma mão puritana. É quando sinto vontade de pegar meu cordão oleoso, como se fosse o cordão de veludo de uma mansão campestre com muitos criados, e puxar com força para ser servido. Vamos lá! Mais uma rodada para os amigos!”

É, sem dúvida, um livro com muitas qualidades perceptíveis e com um narrador instigante que não será esquecido facilmente com o passar do tempo, ainda que não saibamos nem o seu nome e nem mesmo o seu sexo. Começamos como ele, no escuro, e vamos descobrindo e nos decepcionando com as tramoias dos homens com o passar das páginas.

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