Desejo – Elfriede Jelinek

Sinopse: A obediente Gerti é casada com Hermann, diretor de uma fábrica de papel para quem tanto os funcionários como a mulher têm um valor meramente instrumental. Apesar de criança, o filho do casal já se mostra predisposto ao consumismo e a certa perversidade e completa um núcleo familiar disfuncional em que imperam a dominação sexual, a humilhação e o abuso de poder.

Nacionalidade do autor:  
Ano da publicação do texto: 1995

Eu tinha uma grande expectativa para ler “Desejo” da autora ganhadora do Prêmio Nobel de literatura de 2004, já que eu pouco – ou mesmo nada – conhecia da obra dela. Antes de começar a leitura, vi que ela havia escrito “A Pianista”, cujo roteiro foi transformado em um filme que gosto muito chamado “A Professora de Piano”. Assim, o misto de desconhecimento quase total do seu trabalho, um prêmio Nobel no currículo e uma adaptação de filme muito bem-sucedida de um de seus livros me deixou muito entusiasmado para começar a leitura. Pena que a experiência não foi agradável.

Antes de mais nada, não posso ser injusto aqui: Jelinek sabe escrever bem, muito bem, é fato. Contudo, isso nem sempre resulta em uma prosa minimamente agradável de se ler, como foi o caso aqui. Em termos resumidos, o enredo conta a história de Gerti, uma mulher que vive em uma cidadezinha nos Alpes e que compartilha o lar com seu marido, dono de uma fábrica de papel, e seu filho, um pequeno ser consumista. A narrativa enfoca nas relações de Gerti com seu marido e os outros homens ao seu redor, mostrando a submissão feminina perante a esses. É uma submissão que vai para muito além do caráter social, invadindo inclusive o universo sexual dos personagens, incluindo o fetichismo humilhatório e escatológico das relações que Gerti mantém dentro da própria casa. Jelinek traça a sociedade como o espelho desse pequeno universo familiar, com os homens tendo um poder de dominação sobre a mulher em todas as instâncias imagináveis, representando sempre o velho papel do “chefe de família”. Em uma camada mais além, a autora também ironiza em seu texto os padrões de consumo desenfreado da sociedade capitalista, bem como evidencia as relações de classe que confere um status e poder diferenciado para os patrões – seu marido, o verdadeiro macho alfa – em relação aos seus empregados.

Embora a ideia sobre a qual orbita a narrativa seja extremamente interessante e valiosa para inúmeras e infindas discussões, o texto de Jelinek é muito experimental, resultando em uma obra de difícil compreensão e, por isso, em uma leitura arrastada e chata. Não se trata de uma escrita que apresenta uma narrativa bem ordenada e clara, mas sim um turbilhão de ideias confusas que se move em pequenos trechos, ainda que uma prosa bem original e com um potencial enorme para gerar belas passagens isoladas. Confesso que, nas primeiras duas páginas, até imaginei estar lendo o que viria a ser um dos melhores livros que já li na vida, justamente pela beleza das palavras de Jelinek. Porém, a estética acaba por afundar a obra em elucubrações e devaneios que se tornam maçantes. Como exemplo e ilustração do que falei, farei um teste: abrirei em uma página qualquer e pegarei um trecho do livro. Aqui vai:

“Como um cavalo, a mulher estira suas rédeas. Com encabuladas roupas para reduzir na mala de viagem, aquelas pessoas desconhecidas atraídas por anúncios de um jornalzinho de tiragem especial, na maioria das vezes amarradas uma à outra em par, outrora ficavam encolhidas em seu sofá. Oprimidas, mulheres davam sorrisinhos diante de seus copos, para os sentados à sua frente, e também os membros de seus homens precisavam do pretexto: mas aí… em frente! Os senhores são tão livres e gostam de eventualmente trocar o bornal da ração. Desinibidos, ficam em pé diante da mesa da sala de estar e jogam as pernas das mulheres à esquerda e à direita por sobre os ombros, porque em território desconhecido o indivíduo momentaneamente deixa de bom grado seus costumes, só para voltar para casa, consolado, para suas velhas práticas costumeiras. Lá suas camas estão sobre terra firme e, para florescer, as mulheres que vão ao cabeleireiro uma vez por semana levam uma dura”.

Lendo esse trecho isolado, até parece que é uma obra espetacular, com um discursivo floreado não usual. Mas imagine isso por mais de duzentas páginas, sem nenhum respiro, nenhuma descrição ou um momento de narração mais simples e direta. É um verdadeiro abuso poético-prolixo que faz desse livro um grande panfleto político ideológico de elevada pretensão estética. Infelizmente, essa estrutura faz a obra passar de um potencial concorrente a melhor livro que já li na vida para o patamar de um dos livros mais chatos que existem por aí. Talvez até releia no futuro e mude radicalmente minha opinião, visto que consigo visualizar o brilhantismo da escrita de Jelinek. Por agora, é só um livro que não funcionou para mim. Talvez funcione para você.

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