Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski

Sinopse: Crime e castigo é um daqueles romances universais que, concebidos no decorrer do romântico século XIX, abriram caminhos ao trágico realismo literário dos tempos modernos. Contando nele a soturna história de um assassino em busca de redenção e ressurreição espiritual, Dostoiévski chegou a explorar, como nenhum outro escritor de sua época, as mais diversas facetas da psicologia humana sujeita a abalos e distorções e, desse modo, criou uma obra de imenso valor artístico, merecidamente cultuada em todas as partes do mundo.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 1866

Escrever uma resenha para uma obra absolutamente clássica, já comentada, estudada e destrinchada inúmeras e inúmeras vezes é quase o mesmo que cometer um pequeno crime contra o bom senso. Permita-me, ao menos, que eu compartilhe o peso de tal delito e toda a angustia de não ter em minha posse nada que soe minimamente racional e útil para acrescentar quanto ao poder dessa que é considerada uma das obras primas da literatura mundial. É com dúvidas e com um enorme receio que utilizo estas palavras como se fossem meus próprios olhos para encará-los, leitor, ainda que eu já possa sentir aí, do outro lado, um ligeiro ar de julgamento que, infelizmente, tende para a condenação. Afinal, uma resenha que se preze não deveria estar preocupada em esbanjar suas dúvidas e desculpas acompanhadas por uma pitada de autocomiseração.

Não obstante o viés quase autodepreciativo que inicio este pequeno texto, acredito que, com alguma sorte, ele possa servir como ilustração da capacidade que o livro de Dostoiévski tem em trabalhar o psicológico perturbado de seus personagens, aí incluindo o complexo protagonista, Raskólnikov, que, em um impulso de natureza nebulosa, resolve sair de seu apartamento e matar uma velha e uma moça a machadadas. Sim, é um ato tão frio e visceral quanto o desprezo que já imagino você estar sentindo por esta resenha. No entanto, você segue lendo, talvez movido pelo que considera certo, isso é, terminar aquilo que já começou. Não é possível abandonar suas convicções no meio do caminho, é preciso seguir uma linha de raciocínio. Mais do que isso: é preciso se ater aos seus princípios sem culpa, pois não poderá se entregar às saídas fáceis, típicas dos fracos. Pois é, você tem no seu sangue um pouco de Raskólnikov. Vai ver que todos nós temos, embora fraquejemos com certa frequência. É nesse momento que reconhecemos os nossos crimes através do ato de não suportar e, no fim, é isso que nos tira a razão.

Não adianta buscar refúgio na amada que dorme ao lado, nem em qualquer um que esteja vagando por aí, pois cada um deles tem ali escondida sua fraqueza e ninguém jamais compreenderá direito qual é a sua. Portanto, suporte. Aguente o pesar infame de ser colocado sob a suspeita de ler algo que não parece minimamente razoável e nem resuma a história do livro. Talvez sua mãe até procure se convencer de que tudo o que você faz é para o seu bem, embora ainda assim você a despreze. Talvez você encontre uma santa travestida de prostituta que sempre o apoiará nesses seus atos inúteis, mas ainda assim você a desprezará. Talvez você despreze até mesmo os conselhos sábios de seu amigo mais próximo, pois prefere buscar um prazer sádico ao denegrir sua própria imagem. Talvez isso tudo seja, novamente, o seu lado Raskólnikov lutando para vir à superfície e justificar a necessidade de suportar suas pequenas transgressões cotidianas. Para sua sorte, esta foi apenas uma rápida infração literária, sem necessidade de uma punição contundente, ainda que a principal punição seja sempre aquela que fica martelando na consciência. Finalmente, é hora de retomar o fôlego e esquecer de vez toda a suspeita que assombrava cada uma das palavras aqui escritas, pois o crime já foi cometido e a resenha assim terminou.

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