As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay – Michael Chabon

Sinopse: O livro é um retrato da Nova York das décadas de 30 e 40: uma cidade se recuperando de uma grande recessão e sob a sombra da Segunda Guerra Mundial.
Um local onde imigrantes se tornavam americanos, órfãos se transformavam em super-heróis e a cultura pop e suas manifestações – pulp fictions e histórias em quadrinhos – viviam seu momento mais glorioso. Clay e Kavalier farão parte dessa história, criando “O Escapista”.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 2000

Qual a criança que não tem seus super-heróis favoritos durante a infância? Ou melhor, qual adulto também não os tem? E mais do que isso, há melhor veículo para passar a imagem dos combatentes do mal e seus superpoderes do que os quadrinhos, local de nascimento de astros como Batman e Superman? É difícil discordar que as revistas em quadrinhos é o local de origem dos grandes super-heróis e suas façanhas, de figuras que dominaram e ainda hoje dominam a nossa consciência cultural ocidental. Ainda que hoje o cinema tenha tomado a dianteira no aspecto dos super-heróis, há um universo cada vez mais prolífico para aqueles que ainda se mantêm fiel à mídia original, como é meu próprio caso. Como colecionador de HQs, fiquei extremamente curioso para ler “As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay”.

Michael Chabon nos joga no início da II Guerra Mundial e na vida de dois garotos: Sam Clay, que vive em NY com sua mãe e sua avó, e Joe Kavalier, um aspirante a mágico e escapista que vive com sua família em Praga. Joe e sua família são judeus e começam a planejar meios de fugirem da Europa, mediante o medo crescente que os circunda. O escolhido para, de fato, levar a cabo a fuga, dada à limitação de recursos, é Joe, que tentará seguir para os EUA, deixando para trás seu pai, mãe e seu pequeno irmão, Thomas. Como é de costume nas histórias e relatos dessa época, Joe não terá facilidade para fazer seu trajeto, mas segue seu caminho com a promessa de, caso tenha sucesso em atravessar o Atlântico, fazer de tudo para resgatar sua família, principalmente seu irmãozinho. Não demora muito para sabermos que Joe tem sucesso e que seu destino é justamente a casa de Sam, seu primo distante. Os dois, tendo quase a mesma idade, logo são postos pela mãe de Sam para dividirem a mesma cama na noite em que Joe chega a NY. Não por menos, também compartilham, escondidos, um cigarro. E, se isso já não fosse o suficiente para criarem laços desde o princípio, descobrem que partilham o amor pelo desenho. A partir daí, essa dupla – como não poderia deixar de ser – tornam-se os heróis da história que iremos acompanhar, vivenciando o nascimento da indústria de histórias em quadrinhos voltada para os super-heróis. Em meio a tantos uniformes, superpoderes e ideias mirabolantes, eles criam “O Escapista”, herói que os permitirá alcançar algum reconhecimento e uma segurança financeira.

À parte podermos acompanhar um pouco toda a dinâmica e o funcionamento do processo criativo e de gerenciamento das HQs ao longo de mais de uma década, Chabon concentra a narrativa nos percalços que Joe e Sam passam ao longo dos anos. O livro toca nas questões da Guerra, do nazismo, dos laços familiares, da identidade e do tabu do homossexualismo. Percebe-se que o autor fez um esforço não só para homenagear em sua história os mestres da nona arte, como Jack Kirby, Stan Lee e Will Eisner, mas também fez um esforço de pesquisa para se aprofundar em questões e detalhes sobre os locais que insere na narrativa, sobre a vida das pessoas naquela época, sobre a II Guerra e, claro, sobre Houdini, o maior de todos os escapistas. Afinal, tanto Joe quanto Sam, assim como o herói que criam, estão sempre tentando escapar de determinados pesos e pressões que os acompanham.

Ainda que o tema me seja de total interesse e que Chabon seja cuidadoso ao explorar esses diversos elementos que compõem seu texto, a história não me empolgou muito. Para mim, os momentos mais interessantes do livro são aqueles que, de alguma forma, deixam transparecer as relações pessoais mais profundas entre os personagens, demonstrando alguns laços afetivos que vão se desenvolvendo e alguns medos que vão sendo resolvidos, nem sempre da melhor forma possível. Por exemplo, os momentos entre Joe e seu irmão são de muita ternura e companheirismo. Os poderes dos personagens e da história reside nesses momentos mais intimistas e singulares, não em grandes feitos, muito menos em qualquer tipo de superpoderes. Contudo, confesso que esperava mais do livro, ainda mais com a marca da premiação do Pulitzer – prêmio esse que cada vez mais não me diz muita coisa. Até pelo tamanho do livro, essa é uma história que teria mais espaço para os aprofundamentos intimistas e reflexivos, mas acaba sendo do tipo mais descritivo, cheia de acontecimentos e do caminhar cronológico para o avanço da narrativa. De algum modo, o estilo da escrita me lembrou bastante aquele presente em “O Mundo Segundo Garp”, de John Irving. Também acho que os dilemas morais e a profundidade psicológica dos personagens poderiam ser melhores aproveitados. Em todo caso, se, para mim, Sam Clay e Joe Kavalier não foram os heróis perfeitos e nem seus feitos me marcaram tanto, há sempre alguém com um olhar diferente e pronto para defender seus heróis e suas aventuras favoritas. Quem sabe, para você, não seja o caso desse livro. Basta vestir a capa e enfrentar as quase setecentas páginas.

CLASSIFICAÇÃO:

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s