As Alegrias da Maternidade – Buchi Emecheta (TAG)

SinopseNnu Ego, filha de um grande líder africano, é enviada como esposa para um homem na capital da Nigéria. Determinada a realizar o sonho de ser mãe e, assim, tornar-se uma “mulher completa”, submete-se a condições de vida precárias e enfrenta praticamente sozinha a tarefa de educar e sustentar os filhos. Entre a lavoura e a cidade, entre as tradições dos igbos e a influência dos colonizadores, ela luta pela integridade da família e pela manutenção dos valores de seu povo.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 1979

Os livros têm o potencial de oferecer ao leitor uma viagem a lugares muitas vezes inacessíveis na vida real. Seja porque esses lugares são terras distantes localizadas na imaginação de cada um, seja porque são parte de um passado que já não existe mais, as palavras nos servem como os únicos guias possíveis para explorar essas paragens. Pois bem, à primeira vista, não é difícil concordar que a Nigéria da década de 30 e 40 faz parte desse tipo de lugar. Essa é a Nigéria que, em meio (e de certo modo, alheia) à II Guerra Mundial, é retratada em “As Alegrias da Maternidade”. Não é uma Nigéria simples e estável, mas complexa e efervescente, uma mistura de etnias e de diferentes valores regionais que entram em confronto com a cultura do colonizador ocidental.

Ainda que essas diferenças e conflitos já fossem o suficiente para tecer uma narrativa muito rica, o livro nos oferece uma companheira de viagem singular: Nnu Ego, filha de Agbadi, um exímio caçador, orador e chefe de sua vila Igbo em Ibuza, e de Ona, amante de Agbadi, uma mulher independente e orgulhosa. Ao acompanharmos o desenrolar da vida de Nnu Ego, vamos descobrindo a ironia do título do livro e adentrando no cerne das questões discutidas por Emecheta. Durante essa viagem, descobrimos as dificuldades das mulheres nigerianas e qual era seu papel na sociedade daquele tempo. E não era um papel fácil. Pode-se dizer até que temos um tipo de narrativa de denúncia, sem ser, no entanto, panfletária. A mulher nigeriana (particularmente, a mulher da etnia Igbo, como Nnu Ego) é retratada como propriedade dos homens: sim, doS homenS, no plural, pois pertencem ao marido, ao pai e aos filhos. Ao longo do livro, observamos o desejo de Nnu Ego em ser mãe. Contudo, esse desejo é uma mistura de sonho próprio com uma elevada pressão social, já que a personagem passa a tratar a questão da maternidade como uma forma de escravidão em sua vida. Todas as suas alegrias e tristezas estão condicionadas ao que ocorrerá com seus filhos. Abdicar do seu papel de mãe e esposa é abdicar de seu povo.

Mas o que é um “povo” se não uma identidade cultural, arraigada em costumes, convenções e normas sociais mais ou menos bem delineadas? Emecheta, através de nossa companheira de viagem, Nnu Ego, reconhece isso e não transforma o livro em um simples depoimento sobre a vitimização da mulher nigeriana. Ela exalta o papel ativo que as mulheres devem (ou deveriam) assumir dentro da sociedade, assumindo uma responsabilidade como protagonistas de uma mudança no seu “povo”. Nessa passagem, a mensagem é bem clara:

“Os homens nos fazem acreditar que precisamos desejar filhos ou morrer. Foi por isso que quando perdi meu filho eu quis a morte, porque não fora capaz de corresponder ao modelo esperado de mim pelos homens de minha vida, meu pai e meu marido, e agora tenho que incluir também meus filhos. Mas quem foi que  escreveu a lei que nos proíbe de investir nossas esperanças em nossas filhas? Nós, mulheres, corroboramos essa lei mais que ninguém. Enquanto não mudarmos isso, este mundo continuará sendo um mundo de homens, mundo esse que as mulheres sempre ajudarão a construir”.

No final das contas, talvez a viagem que iniciamos no começo do livro não tenha nos levado tão longe assim como imaginávamos. Os dilemas e a vontade das mulheres têm sido renegados ao segundo plano por muito tempo, seja em um pequeno povoado da Nigéria durante a II Guerra, seja nos dias de hoje. Ainda que muitas conquistas tenham sido feitas por elas ao longo do tempo, ainda é válido o alerta para os abusos contemporâneos que elas sofrem e a necessidade de se buscar uma voz ativa dentro de seu “povo”, seja ele quem for.

Classificação

 

 

 

 

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