A Máquina de Fazer Espanhóis – Valter Hugo Mãe

Sinopse: Depois de perder a mulher, o barbeiro António Jorge da Silva passa a viver num lar de idosos. Os quartos da ala direita dão para um jardim onde crianças brincam. Os da esquerda, reservados aos acamados, têm vista para o cemitério. Que alegrias pode a vida oferecer a alguém tão próximo de seguir esse caminho? A convivência com funcionários e pacientes do asilo, entre eles o centenário Esteves “sem metafísica”, do poema “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, revela a António uma nova possibilidade de existência. Como a flor que fura o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio, a prosa trágica e divertida de Valter Hugo Mãe busca, na humanidade dos que padecem, material para louvar a vida, mesmo em suas manifestações mais ameaçadas.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 2010

Convenhamos, “A Máquina de Fazer Espanhóis” é um dos títulos mais estranhos que um livro pode ter. Particularmente, isso já me serviu como um atrativo logo de cara. Quando vi que se tratava de literatura portuguesa, o nível de atratividade aumentou ainda mais. Depois de pesquisar e encontrar algumas boas referências e de ver que era um romance premiado com as honrarias que leva o nome de um tal de José Saramago, pimba! Não me restou nada além de colocar essa singular peça literária no topo da minha lista de prioridades. Salve, Portugal!

Nas primeiras páginas do livro, somos testemunhas da angústia de Antônio Jorge da Silva, nosso narrador, um senhor de 84 anos que está a esperar por notícias de sua mulher, Laura, que dera entrada no hospital algumas horas antes. Logo de cara, já se nota toda a capacidade que Valter Hugo Mãe tem de nos contar uma história que toca nas profundezas dos sentimentos humanos, tanto do Sr. Silva como do leitor. É louvável o quão bem o autor construiu os pensamentos de um personagem com uma idade bem avançada, ainda mais se pensarmos que Mãe não tinha nem mesmo 40 anos quando escreveu o romance. Esse é um daqueles casos em que custamos a crer que as palavras que estamos lendo não tenham surgido do âmago do próprio personagem, como se este tivesse mesmo uma vida própria, sem a necessidade de atribuir créditos ao seu criador. E essa veracidade do Sr. Silva é tão flagrante que vai apresentando as mudanças típicas do ser humano. De um idoso rabugento, que acredita que os velhinhos são “uma gelatina de carne a amargar como para lá dos prazos” e desejasse que o romantismo fosse “uma coisa feita de merda e saísse do cu de algum bicho estúpido”, temos, aos poucos, um idoso que percebe as nuances de estar cada vez mais próximo da morte e que, mesmo nessa idade, ainda é possível aprender e se arrepender.

Essas mudanças, no entanto, são lentas e não significam que nos deparamos com um Sr. Silva de um caráter maleável, fácil de se deixar convencer. Não. Definitivamente, temos uma figura de personalidade muito forte, que sustenta, até o fim, o pensamento de que a crença na transcendência humana é apenas uma forma de “apaziguar a fatalidade de sermos efêmeros”. Ele, inclusive, trata uma imagem de Nossa Senhora de Fátima como se fosse apenas uma simpática boneca, a “Mariazinha”, que fica a olhá-lo da cabeceira de sua cama com um “ar de parva aflita”. Apesar de fincar resolutamente seus pés em sua não-crença na validade das inúmeras formas de especulações humanas, o Sr. Silva se permite refletir sobre outros aspectos da vida. Dentre eles, vai aprendendo ao longo dos seus dias no asilo o que é uma família de fato, bem como vai entendendo a importância de pertencer a uma nação, de ter orgulho de suas origens e, mais, de se arrepender pelo que deixou de lutar e de fazer quando era mais jovem. Em meio a uma profusão de reflexões sinceras da reta final da vida de um homem, Valter Hugo Mãe consegue trazer um forte contraponto histórico, questionando o pensamento e o comportamento dos portugueses durante o período da ditadura de Salazar (uma máquina de roubar a metafísica dos homens) e suas heranças em relação aos comportamentos que se observam até hoje, comportamentos esses que demonstram uma indiferença ou mesmo um certo desprezo pelas tradições e qualidades de Portugal, muitos almejando, inclusive, que seu país fosse uma cópia da outra metade da península ibérica. Vamos descobrindo, então, qual é essa tal “máquina de fazer espanhóis” que nos assombra misticamente desde o título do livro e que serve como uma última peça caprichosa em um perfeito quebra-cabeça sobre a construção da humanidade. E salve, Portugal!

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