A Invenção de Morel – Adolfo Bioy Casares

Sinopse: Um cidadão venezuelano torna-se recluso em uma ilha deserta para fugir de uma condenação judicial. Enquanto se alimenta de raízes psicotrópicas, o expatriado vê se apagar cada vez mais o limite entre a imaginação e a realidade.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 1940

Exteriorizar e replicar os sentidos é uma fixação do homem desde que o mundo é mundo, assim como também é o ato de amar. Peço um pouco de indulgência do leitor por relacionar “fixação” com “amor”, dado que, de bate-pronto, a primeira palavra parece mais ligada a um tipo de vício incontrolável e insano do que a um conceito transcendental e belo inerente à segunda palavra. “A Invenção de Morel” nos mostra que, em realidade, o amor pode ser entendido – se é que tal sentimento seja passível de entendimento ou de uma perscrutação mais racional – como uma espécie de fixação, caso leve o indivíduo aos seus extremos. Nesse quesito específico, eu confesso que esse romance não é, nem de longe, um exemplar único na literatura.

No entanto, se o romance nos fala sobre os extremos do amor, talvez sua grande beleza e originalidade é nos falar também sobre essa outra obsessão humana: a exteriorização e replicação dos sentidos. O que quero dizer com isso? Quero dizer que o homem, seja por prazer, diversão, dinheiro ou mesmo por desígnios mais transcendentais de uma busca pela imortalidade, sempre tentou transpor as barreiras físicas de seu próprio corpo para replicar seus sentidos em um mundo exterior a si mesmo. Exemplos disso são as invenções dos discos, da fotografia, do cinema. As vozes saem do corpo e são gravadas para serem ouvidas em outro espaço, em outro tempo. Da mesma forma, as imagens, estáticas ou em movimento, trazem consigo algo que já se foi, mas que parece querer perdurar. É a tentativa de uma imortalidade do homem através da replicação de seus sentidos. Contudo, esses são exemplos de uma imortalidade parcial, pois são apenas replicações do auditivo e do visual, deixando de lado os paladares, os cheiros e os toques. Indo um pouco além, deixando de lado a incapacidade de replicar a consciência ou, avançando um grau a mais na escala metafísica, replicar a alma. Se não é possível vencer essa fixação, seria possível vencer essa parcialidade?

Seja como for, essas duas fixações são as matérias-primas que Adolfo Bioy Casares trabalha com maestria em seu curto e profundo romance, auxiliado pela escolha de um narrador em primeira pessoa que nos empresta o olhar de um fugitivo da lei isolado em uma ilha misteriosa, onde tudo o que vê é suspeito. Nessas suspeitas e no suspense que vai se ampliando ao acompanharmos os relatos desse fugitivo, as matérias-primas de Casares vão entrando aos poucos no texto, até se transformarem em um exímio produto final, ampliando o que parece ser, no início, somente uma simples história descompromissada e sem grandes reverberações.

classificação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s