A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera

Sinopse:  Quatro personagens protagonizam essa história: Tereza e Tomas, Sabina e Franz. Por força de suas escolhas ou por interferência do acaso, cada um deles experimenta, à sua maneira, o peso insustentável que baliza a vida, esse permanente exercício de reconhecer a opressão e de tentar amenizá-la.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 1984

Há vários sinais que nos fazem identificar um livro como sendo excepcional. Podemos nos afeiçoar intensamente a um personagem; podemos nos aprofundar e nos envolver com os temas abordados; podemos ficar boquiabertos pela escrita e pela forma da narrativa; podemos nos apaixonar por tudo isso, pelo conjunto da obra. No entanto, talvez o maior sinal de que estamos a ler um grande livro é quando nos pomos a perguntar e querer saber mais sobre quem é o autor. Quando lemos algo que nos impacta de forma contundente, logo vem uma vontade de saber quem é que nos atinge dessa forma, quem é o artesão daquele mundo ficcional em que agora adentramos e fazemos parte. Pois então, caro Milan Kundera, quem és tu?

A bem da verdade, não sei grandes detalhes sobre a vida do escritor tcheco, mas, seja como for, todas as vezes que nos fazemos esse tipo de pergunta a resposta é instantânea e sempre igual, independentemente do autor que nos leva a esse tipo de questionamento: é um gênio da literatura. Em “A Insustentável Leveza do Ser”, Kundera narra – e já aí aparece uma peculiaridade, pois o autor é um narrador em terceira pessoa que participa ativamente da narrativa, inclusive se permitindo a suposições e reflexões sobre os próprios acontecimentos que narra – a história de quatro personagens centrais: Tomas, Tereza, Sabina e Franz. O contexto histórico é o período pós invasão russa na República Tcheca em 1968 e o questionamento constante do regime comunista. Contudo, não há motivo para enganos: a prosa de Kundera não é nada clichê e permeada de vazios argumentativos ou respostas prontas típicas de críticas mal embasadas a determinadas estruturas sociais. Pelo contrário, a beleza do romance já se inicia na primeira página, quando o autor nos apresenta uma reflexão com um viés filosófico sobre o que chama de “mito do eterno retorno” e que vai definir a espinha dorsal das ponderações mais intensas do livro. Explicando brevemente, Kundera afirma que “a ideia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não parecem ser como nós conhecemos: elas aparecem para nós sem a circunstância atenuante de sua fugacidade”. E o que isso significa? Significa que se os segundos de nossas vidas se repetissem infinitamente, qualquer acontecimento teria um peso de uma responsabilidade insustentável. No entanto, segundo o autor, esse fardo da responsabilidade nos aproxima da terra, da vida real e verdadeira. Por outro lado, “a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semirreal, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes”. Assim, Kundera põe a questão: “O que escolher, então? O peso ou a leveza?”

Diante dessa introdução que nos leva de imediato a pensamentos filosóficos e a um dilema inquietante sobre se ater ou não ao peso da responsabilidade dos nossos atos, é justamente esse também o dilema de cada personagem do livro. Tomas é um médico residente em Praga que teve um filho com uma mulher que não amava, resolvendo não falar nunca mais com nenhum dos dois. Em uma viagem para o interior, ele conhece, por conta do acaso, Tereza, uma garçonete pela qual se vê apaixonado. Ela, por sua vez, passou uma infância dura sob os olhares da mãe, se sentindo eternamente em dívida em relação a ela – ainda que sua mãe nunca tenha demonstrado nenhum sentimento de amor por Tereza. O problema da relação que surge entre Tomas e Tereza é que ele sempre teve um certo medo das mulheres, já que está acostumado apenas a nutrir certas “amizades eróticas”, sem nunca se deixar envolver compromissadamente com nenhuma mulher. De toda forma, o relacionamento entre os dois se estreita, mas Tomas permanece visitando suas amantes ocasionais e, em particular, Sabina, uma pintora de forte personalidade, contestadora do status quo. Por sua vez, Sabina também é amante de Franz, um sujeito com concepções de vida diametralmente opostas às dela. Finalmente, além do próprio Franz trair sua esposa com Sabina, também trai esta com outra amante, o que lhe ocasiona um certo peso na consciência, pois considera que um homem deveria buscar ser fiel, principalmente à quem ama – ou seja, à Sabina. Enfim, essa é uma descrição sucinta da trama de traições e relações amorosas pela qual os personagens centrais vão se envolvendo.

Se esse enredo sugere um livro digno de uma história de programas de televisão vespertinos sobre baixarias cotidianas e problemas levianos, não se deixe enganar novamente: Kundera vai nos imergir na mente e nas angústias dos personagens com uma habilidade incrível. Os acontecimentos em si pouco importam para o observador externo – no caso, nós -, mas trazem um peso psicológico imenso para os personagens, sendo que é nas reflexões de cada um deles que mora a genialidade do livro. Afinal, todos têm uma dificuldade em se libertar de algo que os incomoda, inviabilizando-os de viver uma vida com leveza. Mas, afinal, se alcançada essa leveza, a vida não passaria a ser insignificante? As escolhas não deixariam de ter importância? Eis a questão que nos foi posta lá no início do romance e que vão martelando nossa cabeça enquanto devoramos as páginas do livro.

Afora esse universo psicológico riquíssimo, Kundera ainda nos presenteia com passagens de reflexões que vão além da espinha dorsal da narrativa: o conceito de mulher, a vida pública versus a vida privada, a relação entre culpa e conhecimento e, até mesmo, uma ponderação sobre como determinar a verdadeira bondade do homem diante de uma hierarquia de poder. Sobre este último ponto, vale mencionar uma passagem brilhante:

“Nunca se poderá determinar com certeza em que medida nosso relacionamento com o outro é o resultado de nossos sentimentos, de nosso amor ou não amor, de nossa benevolência ou de nosso ódio, e em que medida ele é determinado de antemão pelas relações de força entre os indivíduos. A verdadeira bondade do homem só pode ser manifestar com toda a pureza e com toda a liberdade em relação àquele que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, situado num nível tão profundo que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. E foi aí que se produziu a falência fundamental do homem, tão fundamental que dela decorrem todas as outras”.

Seja por esse ou outros trechos, “A Insustentável Leveza do Ser” é de uma profundidade e beleza ímpar, na qual Milan Kundera constrói uma trama sem grandes suspenses ou surpresas, mas com um peso literário absurdo, que nos deixa perguntando quem é esse gênio que a escreveu. A despeito desse peso, a leitura está longe de ser um fardo. Pelo contrário, saímos dessa experiência mais leve e em contato pleno com o sentido do que é viver sob a batuta de uma moralidade.

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