Wittgenstein’s Mistress – David Markson

Sinopse: Wittgenstein’s Mistress é um romance diferente de tudo que David Markson e outros autores já escreveram. É a história de uma mulher que está convencida e, incrivelmente, irá também convencer o leitor de que ela é a única pessoa viva na Terra.

Nacionalidade do autor: 
Ano da publicação do texto: 1988

“Wittgenstein’s Mistress” é um livro experimental. É, em realidade, quase uma brincadeira de livre associação. O problema é que essa brincadeira é feita pela protagonista, Kate, uma mulher que está sentada na frente de uma máquina de escrever em uma casa na praia, datilografando seus relatos – ou seja, o próprio livro é o relato que ela está escrevendo – em um mundo no qual, aparentemente, ela é a única pessoa viva. Digo “aparentemente” porque Kate não é uma pessoa confiável. Ela está menstruada. Sim, mas isso não é um motivo factível para deixarmos de confiar nela. O problema é que sua mente é completamente deturpada e confusa.

Ao longo do texto, descobrimos que, aparentemente (porque, lembre-se, tudo nesse livro pode ser um grande “aparentemente”), Kate tinha um marido e um filho que viviam no México. Tinha também um gato que não tinha nome, o qual era chamado simplesmente de Gato. Compondo seu quadro pessoal, também percebemos que Kate é uma pintora. Sendo assim, grande parte do livro gira em torno de comentários pessoais de Kate sobre a vida e a obra de pintores famosos. Outro de seus interesses é a história da Grécia antiga, e vamos observando nossa insana protagonista em seus devaneios sobre o que Helena de Tróia fez, o que Agamemnon deveria ter feito, e assim por diante. Como se não bastasse toda essa cultura clássica, também entra em explanações sobre diversos compositores de música erudita e seus costumes.

Em meio a esses temas, o que importa nesse livro é como a narrativa é conduzida por David Markson. A melhor forma de entender como o livro se estrutura em suas associações é dando um exemplo de um trecho. A ver:

“Incidentalmente, nenhum dos três quadros nessa casa estão assinados. (…) Frequentemente, Modigliani assinava o trabalho de outros pintores. Isso ocorria para que eles pudessem vender as pinturas que, de outra forma, talvez não conseguissem vender. (…) Uma vez, na Galeria Borghese, em Roma, eu assinei um espelho. Eu fiz isso em um dos banheiros femininos, com um batom. O que eu estava assinando era uma imagem de mim mesma, naturalmente. Se outra pessoa olhasse, minha assinatura ficaria sob a imagem da outra pessoa, no entanto. Sem dúvida, eu não teria assinado caso tivesse outra pessoa para olhar. Embora, na verdade, o nome que eu assinei foi Giotto”. (tradução livre)

Esse exemplo mostra que a protagonista parte dos quadros da casa em que está escrevendo para relembrar uma situação passada, em outro lugar. Além disso, nesse pequeno trecho já podemos observar que nem ela mesma sabe com certeza o que escreveu. Não é possível confiar em seu relato.

Qual é o veredito para um livro aparentemente (de novo este advérbio) único em sua proposta, de originalidade indiscutível, mas que foi recusado por 44 editoras, como afirmado em uma entrevista pelo próprio autor? Posso dizer que minha sensação inicial foi de que era um livro excelente. Minha sensação foi se alterando para um livro bom. Finalmente, minha opinião passou para um livro cansativo, que vai exaurindo o leitor em sua erudição maluca e gratuita. Se o livro tivesse umas 130 páginas a menos, provavelmente minha percepção final seria bem mais positiva do que foi, mas, com o andar da leitura, é possível entender o elevado número de rejeições que Markson teve de diversos editores. É uma leitura que passa de um exercício de narrativa para um exercício de paciência.

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