Top 10 Leituras de 2018

Senhoras e senhores, mais um ano de leituras chega ao fim!

É hora de fazer aquele resumo nada meritocrático sobre as melhores obras lidas – e parcialmente já esquecidas – de 2018. Esse tipo de lista sempre tem uma natureza injusta, pois a experiência de leitura é algo muito específico e que depende muito do que se sente quando se está lendo o livro. Assim, qualquer avaliação em retrospecto não fica totalmente livre de um viés do esquecimento dessas sensações já sentidas no passado. Isso significa que, lá no fundo, é bem capaz que o livro que está em oitavo na lista deveria estar em sexto, ou o quinto em oitavo, e por aí vai. Mas enfim, chega de desculpas melindrosas e vamos ao que interessa, lembrando que para acessar a resenha completa basta clicar no título ou imagem do livro.

10. Enclausurado – Ian McEwan

Ora, ora, que tal ler um livro cujo narrador é um feto? Mais ainda, um feto dotado de um inteligência e sagacidade acima da média? Mais ainda, um feto beberrão, tomador de vinho? É justamente essa a proposta de McEwan neste livro. O autor transborda criatividade em sua proposta, algo que sempre valorizo. É difícil ler a sinopse ou saber do que se trata a história e não ter curiosidade para descobrir por conta própria o que o autor escreveu. Um livro de tiro curto, não memorável, mas muito divertido.

 

 

 

9. A Exposicão das Rosas e a Família Tóth – István Örkény

Curiosamente, este livro se assemelha em um certo nível com o de McEwan: um livro curto e composto de duas novelas muito criativas. Enquanto na primeira acompanhamos o desespero de uma família para receber em sua casa o idiossincrático chefe de seu filho da melhor forma, na outra temos um diretor de TV que pretende realizar um documentário com doentes terminais. A escrita de István Örkény tem um belo tempero kafkaniano de absurdos, conferindo um tom mais suave e cômico ao olhar crítico sobre os problemas da Hungria comunista.

 

 

 

8. Teoria Geral do Esquecimento – José Eduardo Agualusa

O livro de Agualusa é daqueles que tem uma fluidez incrível na narrativa, conferindo uma facilidade de leitura que realça a belíssima história por ele escrita. Acompanhamos a vida de Ludovica, uma mulher que decide simplesmente construir um muro na entrada do seu próprio apartamento e se isolar de todos os eventos que ocorrem no dia-a-dia da capital da Angola. Em meio a estratégias de sobrevivência dignas de um Robinson Crusoé, Ludovica tenta se virar como pode para manter sua vida e do seu cachorro, Fantasma. Seu contato indireto com o mundo exterior ocasiona uma série de desdobramentos, conferindo à história uma curiosidade que só cresce com o passar de páginas.

 

 

7. Terra Sonâmbula – Mia Couto

Mia Couto é um verdadeiro artesão das palavras, sabendo brincar com elas de uma forma muito particular. Nesta obra, vamos seguindo a jornada de um garoto e um velho que se encontram em meio a um Moçambique de guerras civis. Os sonhos e o fantástico dão o caráter central da obra, bem como o desenvolvimento da relação entre os dois personagens centrais. Para quem admira a escrita de Gabriel Garcia Marquez, este livro é um prato cheio, uma espécia de realismo fantástico que não nega suas raízes africanas.

 

 

 

6. A Invenção de Morel – Bioy Casares

Esse é o livre que dizem ter inspirado o seriado “Lost”. Não assisti o seriado, mas não sei se há necessidade disso ao ler este belo livro. O escritor argentino brinca com a questão do real e do imaginado, colocando como tema central da narrativa a obsessão que o ser humano tem em transpor as barreiras físicas e replicar seus sentidos em corpo estranho ao seu, como se buscasse um prolongamento da vida ou mesmo a imortalidade. Em meio a isso, Casares não deixa de dar ao amor um papel fundamental em sua narrativa. Um livro bem curto e magistral.

 

 

 

5. Os Despossuídos – Ursula K. Le Guin

Como é de praxe, as grandes obras de ficcão científica são aquelas que trazem boas reflexões sobre os tempos presentes, as dificuldades, os conflitos, os problemas políticos e sociais… Os despossuídos é um exemplo brilhante desse gênero, não deixando de lado o cuidado com sua forma: presenciamos uma constante viagem no tempo da narrativa. Le Guin nos apresenta duas propostas opostas de mundo e, para a nossa alegria, não toma caminho simplistas, evitando classificações generalistas sobre o que é bom e o que é ruim. Um ótimo entretenimento e uma obra muito bem escrita. Vale a posição 5!

 

 

 

4. O Paraíso Perdido – John Milton

A clássica história da queda do anjo rebelde, a construção do paraíso, o Éden, o duelo entre céu e inferno, Deus, seu Filho, Adão, Eva, a cobra e a maçã proibida. Misture todos esses elementos épicos em um poema soberbo, marcado por algumas manchas de séculos de idade e teremos essa obra magistral, icônica. Está na quarta posição, mas poderia muito bem estar lá na primeira. Acho que a grande sacada de Milton é nos mostrar o lado do pensamento impuro de Lúcifer e de seus seguidores, o que acaba por construir uma imagem de um Deus onipotente e poderoso, porém um tanto quanto arrogante. É quase pecaminoso chegar a torcer para o pecado e a morte adentrarem o Paraíso…

 

 

3. O Estrangeiro – Albert Camus

Um daqueles livros curtos e marcantes, um clássico reconhecido em tudo quanto é canto. O protagonista Meursault é uma verdadeira ode ao absurdo e à insensibilidade. Tudo para ele é um amontoado de indiferenças, o que o faz – e isso nada mais é do que mais um absurdo – se tornar um dos personagens mais diferentes e incríveis da história da literatura mundial. Diante de um cenário onde nada importa, não é exagero destacar um elevado tom de comicidade tendendo para um humor negro atípico. É daqueles livros que não te deixam sair da leitura sem algum tipo de incômodo, sensação essa que parece não saber para onde ir. Seja lá o fim que leve, tanto faz.

 

 

2. The Broom of the System – David Foster Wallace

Mais uma vez tenho que puxar o saco de David F. Wallace, meu escritor favorito. Este livro é mais uma pérola de Wallace escondida por aí no universo da literatura. A capacidade que esse ser humano tem de criar personagens bizarramente originais e diálogos que não deixam esconder toda sua perspicácia observativa do que são as relações humanas faz com que não seja um crime deixar este livro na segunda posição. Torço para que um dia esse autor receba o reconhecimento que merece, principalmente aqui no Brasil. E essa capa é incrível, talvez merecedora de uma tatuagem. Talvez não. Sei lá, me empolgo demais com a obra desse gênio.

 

 

1. A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera

Enfim, chegamos ao melhor livro que eu li em 2018. É sempre impossível descrever obras monumentais, pois qualquer coisa que se diga sobre ela acaba por deixar de lado outros pontos que não seriam menos incríveis. Em todo caso, o Sr. Kundera nos entrega um verdadeiro colosso da literatura, uma história que teria tudo para ser um amontoado de clichês sobre relacionamentos amorosos e traições, mas que acaba por se tornar uma reflexão profunda sobre uma variedade de temas e situações que definem a agonia, o fardo e a leveza moral do homem. De certa forma, seria injusto me obrigar a escrever tanto em tão pouco espaço. Apenas leia.

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