Top 10 leituras de 2017

Pois muito bem, senhoras e senhores!

Vamos ao divertido, descontraído e injusto desafio de elencar os 10 melhores livros que li em 2017. A regra é simples e óbvia: só poderá entrar os livros cuja leitura foi finalizada no ano de 2017. Vale livro de poemas? Sim, vale, até porque não li nenhum. Vale biografia? Vale sim, mas também não li nenhuma. Também vale colocar esses livros mais técnicos, como os de ciências, de economia ou de sabe-se lá o que mais? Claro que vale, mas já adianto que também não vai entrar nenhum nesta lista.

Para dar aquele genuíno clima de suspense, vamos começar em ordem descendente. Se você não gosta de suspense, pode ir deslizando a página até o número 1, o bam-bam-bam de 2017. Se você é daqueles que tem uma piedade obscura e inexplicável pelo segundo colocado, pode deslizar a página até a posição 2 também. Se prefere olhar a partir do terceiro, pode deslizar a… Enfim, chega dessa tremenda bobagem desnecessária e vamos logo para o Top 10. Caso queira ler a resenha, basta clicar no título ou na imagem do livro.

10. Vitória – Joseph Conrad

Que bela capacidade que Conrad tem para escrever e construir seus personagens. No final das contas, quem nunca quis fazer igual ao protagonista deste livro, deixar o mundo todo para trás e se mandar para uma ilha no meio do nada? Seria injusto deixar essa obra de fora da lista, até porque essa é a capa de livro que eu considero a mais bonita da minha coleção. Claro que esse motivo em específico não deveria contar muito, mas, como a lista é minha e quem manda sou eu, achei que poderia até servir como desempate para os demais candidatos que almejavam essa posição não muito gloriosa da rabeira da lista. Mas este aqui venceu. Vitória!

 

 

9. Luz em Agosto – William Faulkner

Eu tenho algum tipo de fetiche com o sul dos Estados Unidos, pois tudo que é de lá me atrai de alguma forma: o blues, o jazz, os destilados, a culinária cajun, os pântanos, a história e, como tudo vem numa mesma torrente, as desgraças. “Luz em Agosto”, como é de praxe no universo de Faulkner, é sobre essa região e sobre as desventuras e obstáculos que os modestos habitantes desse lugar devem enfrentar. É uma leitura visceral, permeada por questões de preconceito e honra. Para quem nunca leu o autor, talvez seja uma ótima porta de entrada, mas não espere encontrar coisas dóceis e agradáveis. Um livro forte, para quem gosta de whiskey.

 

 

8. 100 Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

O tal do Gabo é bom mesmo. Quando peguei o livro e logo vi uma árvore genealógica de uma família imensa na primeira página, sendo que quase todos tinham o mesmo nome ou um nome muito parecido, pensei: lá vem encrenca. Para minha alegria, foi uma encrenca muito boa acompanhar a vida desses personagens e os altos e baixos da aldeia de Macondo, talvez um dos endereços mais fantásticos (em todos os sentidos) da literatura. Acompanhar as visitas do misterioso Melquíades também foi uma dádiva, coroada com um elevado grau de metalinguagem no final do livro. Uma leitura incrível, ainda que a coisa dos nomes possa dar um nó mental de vez em quando.

 

 

7. Catch-22 / Ardil 22 – Joseph Heller

Um livro sobre os absurdos da guerra e das nossas instituições. Tão absurdo quanto a história que nos é contada são os personagens e a linguagem de Heller. Munido de uma ironia e de um humor negro profundo, é difícil não rir das desgraças que nos vai sendo narrada. É um atestado da incapacidade do ser humano em agir livremente diante de uma burocracia infinita. Nos faz lembrar que vivemos dentro de uma espiral infinita onde leis e regras existem para definir e guiar outras leis e regras, que por sua vez existem para definir e guiar outras… e assim por diante. Um livro que deveria ser mais conhecido e lido no Brasil.

 

 

6. Girl With Curious Hair – David Foster Wallace

Infelizmente, esse é um livro de contos ainda não lançado em português. Trata-se de uma mistura de temas e estilos de escrita de David Foster Wallace, meu escritor favorito. Neste livro, sua genialidade passa por escrever com primazia sobre situações que apresentam uma diversidade e uma criatividade inerente: uma convenção de atores de comerciais do McDonalds, um estudante de engenharia elétrica que não consegue consertar um forno elétrico da tia, um autista que participa de um talk-show e por aí vai… Situações e personagens únicos, que provavelmente você não encontrará em nenhum outro texto por aí.

 

 

5. Morreste-me

Uma história curtíssima sobre as memórias e o luto de um filho que acaba de perder seu pai. Seria insensível de minha parte fazer qualquer tipo de piada sobre esse livro, pois ele é pura sensibilidade. A escrita de José Luís Peixoto é sublime e toca dentro do leitor como pouquíssimas coisas que li até hoje. É difícil conceber alguém lendo esse livro com um ar de uma indiferença distante, pois é tudo sobre o sentir, sendo que não há uma trama mirabolante a ser descoberta ou desenvolvida. Foi uma grata surpresa conhecer melhor o trabalho desse autor português e espero ler em breve outras obras dele.

 

 

 

4. O Gigante Enterrado – Kazuo Ishiguro

O Gigante EnterradoFui ler esse livro no escuro, antes de Ishiguro ganhar o Nobel de Literatura de 2017. Ainda que já fosse um autor reconhecido e bem cotado, achei que não ia gostar tanto assim da história ao ler a sinopse do livro. Em geral, não sou um grande fã de livros de aventura, por isso minha expectativa era baixa de início. No entanto, essa história é muito mais do que um mero caminhar de personagens, batalhas, confrontos e obstáculos. Por trás de tudo isso, há um propósito muito maior escondido atrás da névoa criada por Ishiguro, o que nos leva a reflexões sobre o poder da memória e da inviolabilidade do passado. Um baita livro.

 

 

 

3. A Máquina de Fazer Espanhóis – Valter Hugo Mãe

Esse título deu um bug na minha cabeça. O que é essa máquina de fazer espanhóis? São as mães espanholas? É a Espanha? Ou seria espanhóis um novo nome de sorvete? Brincadeiras à parte, esse é um livro que trata o ato de envelhecer de forma arrebatadora, uma ode à vida. Também é um livro sobre a identidade de Portugal e o sentimento de pertencer a algum lugar, coisas que se mesclam durante a narrativa. A literatura portuguesa talvez seja a que, no geral, mais me fascina, e este livro é mais um exemplo típico disso. Assim como o supracitado José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe também é dotado de uma sensibilidade irretocável.

 

 

 

2. O Som e a Fúria – William Faulkner

Pois bem, chegamos ao segundo lugar do pódio. Quando você começa lendo um livro que é narrado logo de cara por um sujeito com problema mental, uma coisa é certa: ou isso vai ser uma tremenda porcaria ou vai ser algo genial. Não há lugar para o meio termo. Em mais um livro ambientado no seu universo do sul dos Estados Unidos, Faulkner traça a decadência da família Compson através de uma variação de narradores e personagens singulares, potentes e inesquecíveis. Do mais inocente ao mais detestável, a precisão que Faulkner tem ao delinear diferentes personalidades é a de um artista que faz de cada trabalho seu uma obra magna. Não é um livro fácil, não senhor. Mas é um livro com L maiúsculo.

 

 

1. Graça Infinita – David Foster Wallace

Como não poderia deixar de ser, o grande campeão de 2017 é aquele que se tornou meu livro favorito de todos os tempos: Graça Infinita, de David Foster Wallace. Modo babação de ovo ligado: isso é algo espetacular, muito fora da curva, original, único, imprescindível e, por que não, vital. Modo babação de ovo desligado: falando sério, esse não é um livro para qualquer um. Para começar, é um verdadeiro tijolo. Se o tamanho não te assusta, talvez saber que há mais de 200 páginas de notas de rodapé te assuste. Se isso ainda não lhe assusta, saber que esse não é um livro linear e que pode te deixar confuso é mais um motivo para te assustar. E é um livro denso e deprimente. Se parte disso for positivo para você ou se for, ao menos, obstáculos transponíveis, então, meu caro, você provavelmente terá uma experiência única. Dificilmente encontrará personagens tão únicos em meio a arguições filosóficas sobre questões como o suicídio, a busca desenfreada por entretenimento, a luta contra os mais diversos tipos de vícios, e outros tópicos nada leves. A mente de David Foster Wallace é perturbada e esse é um livro perturbadoramente inesquecível. O melhor dos melhores, doa a quem doer.

 

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